Aos trinta e um anos, Joanita ficou viúva do seu amado, o militar do Exército mais conhecido como Neco. Cinco filhos. O mais velho com 11, o mais novo com 8 meses. Costureira, vestiu roupa preta durante meses e depois preta e branca por mais um longo tempo em respeito ao marido falecido. Simples, humilde, tocou a vida passando dia e noite na máquina de costura.

Há 44 anos Joanita já entendia a diversidade. Sua clientela era formada por madames, pessoas da classe média e baixa, prostitutas e gays. Sofria o preconceito por ser “mulher sem marido” e por receber em sua cada pessoas que “pudessem desvirtuar a vida dos seus filhos e filhas.
Ofereceu estudo em escola particular a sua prole, apesar de toda dificuldade. Nos aniversários, fazia questão pelo menos do bolo e do parabéns pra você. Com retalhos, fazia fantasia para os filhos pularem carnaval e os vestia a caráter para a expoagro e para os desfiles cívicos.  Incentivava o teatro, a música e a dança. Os filhos apresentavam peças teatrais em casa e o cenário era feito com lençóis, sempre sob o olhar observador da dedicada costureira. Inscrevia-os a concorrer nos concursos de calouro da cidade para que “desenvolvessem”. Já crescidos, os filhos reuniam os amigos em sua casa para as promoções de formatura. Criativa, Joanita enfeitava as lâmpadas com papel celofane e as colocava no vaso de samambaia, para que dessem o efeito de um globo, já que não havia dinheiro para aluguel de clubes.
Com apenas a quarta série primária, Joanita era uma visionária. Encaminhou seus flhos para outras cidades e estados. Queira que conhecessem outra realidade, estudassem e fossem “alguém na vida”. Corajosa, mudou –se para Cuiabá no final de 1980. Achava que na Capital seus filhos teriam mais oportunidades. Quantas vezes ela chorava disfarçadamente num cantinho, mas nunca dizia o motivo.
Os filhos foram tomando rumos diferentes, até que um dia ficou só. Em 1990, repentinamente Joanita se foi, aos 54 anos, sem nunca mais ter entregado seu coração a outro homem. Optou por abdicar de completamente de sua vida pessoal para se entregar aos filhos. Hoje, 20 anos depois, a saudade é cada vez maior. Porém essa mulher humilde, honesta, uma verdadeira guerreira, continua neste plano, como um anjo da guarda, para sempre mãe.
Sandra Carvalho, jornalista, filha caçula de Joanita.
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Celso Carvalho
Celso Carvalho
9 anos atrás

Olá! Eu, Celso Carvalho, sendo filho da Sra Joanita e irmão da jornalista Sandra Carvalho, parabenizo-a pelo artigo sobre nossa querida mãe, que foi sempre guerreira e sempre muito preocupada com a educação dos filhos…
Fiquei muito feliz ao ler esta postagem, e muito emocionado ao ler tais lembranças!
Parabéns a você, Sandra, pelo dia das Mães. Parabéns também por ser essa profissional dedicada que você é!
Que Deus te ilumine, e que você continue escrevendo belos artigos e reportagens como essa, tão emocionante!!
Abraço!

Celso Carvalho
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