Em 1970, ano da criação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), existia uma casa em Manaus com uma placa na porta: Prefeitura Municipal de Aripuanã, em Mato Grosso.
 

O prefeito de Aripuanã naquela época era o único piloto capaz de pousar o seu teco-teco na pista construída. Para a abertura da pista,  utilizaram-se apenas de machados e facões.
Antonio Junqueira, pioneiro seringalista, me presenteou com o livro “Seringal – O mundo dos bravos”, escrito por Marco Aurélio Nedel. O livro é um depoimento de Antonio Junqueira e de outros pioneiros daquela região quase virgem.
 
Na apresentação do livro uma frase me chamou a atenção: “O seringueiro, homem inculto, é o verdadeiro descobridor da nossa Amazônia, um herói, um bravo”. Esta frase é do padre João Evangelista Dornstauder. Segundo o padre José de Moura – autor da apresentação –, Dornstauder foi o pacificador das etnias Kaiaby e Rikbáktsa, e um grande aliado dos seringalistas.
A apresentação do livro – que li com avidez – já me sinalizava que a excursão por ele seria memorável. E foi.
 
Em 1970 tudo o que se sabia sobre o norte do meu Estado é que se tratava da maior área desconhecida do País. Para se ter uma idéia, o município de Aripuanã tinha as dimensões da Inglaterra.
 
O município era de mata alta e fechada, e a população era composta, na sua grande maioria, por índios de várias etnias. Eles viviam em guerra com os brancos invasores. Outros não tinham nenhum contato com os homens brancos.
 
“Tudo o generoso Deus fez, e fez bem.”
 
O planalto Amazônico mato-grossense tinha a oeste o rio Guaporé – “Rio histórico, conhecedor das façanhas dos Capitães Generais.” A leste, “O belo rio Araguaia, límpido e aristocrático”.
 
Muitos foram os pioneiros deste descobrimento. Apenas um ainda está entre nós – o Antonio Junqueira, memória viva das aventuras e desventuras daquela época. O livro aborda com excepcional riqueza de detalhes todas as dificuldades encontradas. Também relata, com maestria, as belezas intocadas da natureza e a fascinante cultura indígena.
 
Em 1971, Fragelli, governador, é obrigado a vender grande parte da região para fechar as contas do tesouro do Estado e promover o desenvolvimento de Mato Grosso, ainda uno.
 
Em agosto de 1972, em Brasília, como 1º Reitor da UFMT, participei da 1ª Reunião do Conselho de Reitores das Universidades Públicas Brasileiras (CRUB). Nesta reunião, nossa equipe de trabalho lança a Universidade da Selva e o Projeto Aripuanã.
 
Em 1974 um avião Búfalo da FAB pousa na pista construída pela Uniselva e homologada pelo DAC. O avião levava o governador Fragelli, três ministros de Estado, técnicos e cientistas dos governos Federal, Estadual e eu – como Reitor da Universidade da Selva.
 
 Iniciou-se ali a integração do Estado de Mato Grosso.
 
Os pioneiros da borracha foram substituídos pelos pioneiros do sul do Brasil, principalmente. A ciência e tecnologia era um aviso de como ocupar racionalmente a floresta. Saem os canivetes do sangramento dos seringais. Surge uma maquinazinha desconhecida dos seringueiros: a moto-serra. A nossa Amazônia é transformada na maior serraria do mundo! Etnias não foram extintas, mas muitas tiveram reduzidas as suas populações.
 
Essa ocupação desordenada foi chamada de progresso.
 
Um seringueiro cuiabano anônimo cunhou esta poética e linda frase, síntese de todo esse processo, com invulgar sabedoria:
 
“No dia em que eu morrer, se minha alma tiver vergonha, não sobrevoará esta mata da seringa”.

Gabriel Novis Neves, ex-jardineiro, médico, fundador e ex-reitor da UFMT.

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