A tendência nas festas e em reuniões de jovens, o cigarro eletrônico tem se tornado uma nova febre no Brasil e no mundo.  O dispositivo, inventado na China em 2003, era visto, inicialmente, como uma maneira de ajudar os fumantes a abandonarem o vício de forma gradual. Porém, especialistas em saúde pública garantem que o cigarro eletrônico é um instrumento que visa, apenas, tornar a indústria do tabaco mais atrativa para retomar o crescimento desse tipo de mercado.
No Brasil, o comércio do produto é proibido porque, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), “não há estudos que comprovem a segurança em sua utilização”. A decisão é apoiada pela Associação Brasileira dos Médicos (AMB) e entidades associadas.
Em conversa com o Circuito Mato Grosso, um acadêmico de direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) disse ser usuário do produto há seis meses. O jovem de 20 anos contou que usa dois tipos do dispositivo –Vape e Pod – com grupos de amigos ou sozinho.
“No dia a dia, eu utilizo o Pod por questão de praticidade, por ser menor e gerar menos vapor, o que me possibilita utilizá-lo no trabalho ou na faculdade. E quando estou com amigos, utilizo o Vape”.
A diferença entre os dois modelos é que o Vape é conhecido por fazer maior quantidade de vapor e ter as concentrações de nicotina menores em comparação ao Pod.
O estudante reconhece os riscos que o produto pode lhe causar e frisa que não se considera um dependente do cigarro eletrônico. “Só utilizo de acordo com a minha vontade. Não são todos os dias que eu faço o uso, todavia, não posso dizer se, no futuro, estarei no controle. Até hoje não pensei em parar completamente com o hábito, mas quando vejo que estou utilizando mais do que o devido, diminuo a frequência”.
“É preciso lembrar também do intuito [dos dispositivos], que foram criados como uma opção para fumantes, visto que a composição leva apenas quatro elementos, proporcionando uma redução de danos imensa em relação aos cigarros tradicionais”.
O médico pneumologista Clóvis Botelho rebate a colocação do universitário e assegura que o dispositivo causa os mesmos prejuízos. “A história de que o cigarro eletrônico causaria menos danos à saúde que o tradicional é um engodo, uma enganação. Ambos são tabaco e causam os mesmos malefícios. O cigarro eletrônico não é brincadeira. Também faz mal e traz prejuízos que a gente não conhece ainda, pois contém produtos que facilitam a combustão do tabaco e que entram na corrente sanguínea, atacando as células do pulmão”.
De acordo com o especialista, por se tratar de um fenômeno relativamente recente, os efeitos colaterais da inalação do tabaco não são conhecidos até o momento e, por isso, podem trazer complicações ainda mais graves que o cigarro convencional.
“O cigarro eletrônico usa aldeídos, que são substâncias altamente tóxicas para o organismo e que se misturam no aquecimento do tabaco para produzir a fumaça. Ou seja, é uma bomba relógio, que estamos acompanhando o início e vamos, daqui a alguns anos, ver o estrago que será feito”.
Morte
Os riscos do dispositivo ficaram ainda mais em evidência no dia 23 de agosto, quando foi registrada a primeira morte provocada por complicações devido ao uso de cigarro eletrônico, nos Estados Unidos. De acordo com o jornal Washington Post, a vítima era um homem adulto, que passou a apresentar uma série de problemas respiratórios, tosses frequentes, perda de fôlego, cansaço, vômitos e diarreia, após o uso excessivo do novo cigarro.
Narguilé
Clóvis Botelho também chama a atenção de outro produto prejudicial a saúde, mas que caiu no gosto dos jovens: o narguilé. Segundo o pneumologista, o cachimbo de origem árabe é muito mais nocivo que o cigarro e que os seus usuários têm uma imagem deturpada do dispositivo.
“O uso do narguilé é um costume cultural glamourizado pelos jovens, que acham que é algo bonito, como uma reunião de família ou de amigos, mas a cada sessão de narguilé, fuma-se o equivalente a 100 cigarros. Além do consumo do tabaco, as pessoas inalam monóxido de carbono, um gás altamente tóxico e que possui mais afinidade com as moléculas de hemoglobina do que o oxigênio, necessário para a nossa respiração”.
Dependência
O médico explicou que o cigarro eletrônico, assim como as outras formas de tabagismo, causa dependência química em seus usuários da mesma maneira que a cocaína, a heroína, a maconha e o álcool. Isso se deve a nicotina, alcaloide que é o principal ativo do tabaco.
“Ela provoca a dependência porque altera o funcionamento do cérebro. A nicotina cria um numero maior de receptores ávidos pela droga, dando a sensação de prazer no momento em que se consome o produto. Além do mais, ela gera a condição de ambivalência no usuário, pois a maioria das pessoas sabe dos malefícios que o tabaco traz, mas mesmo assim continuam a fumar por causa da satisfação que ele proporciona. Ou seja, o cérebro é ‘trabalhado’ para se tornar um escravo do vício”.
Tratamento
Clóvis destaca que o primeiro passo para superar o vício é se conscientizar de que precisa mudar. Essa decisão é totalmente exclusiva do usuário e não de imposições ou pedidos de familiares ou amigos.
“O fumante precisa entender que, acima de tudo, é um doente. Enquanto a pessoa não tiver noção de que precisa de tratamento, ela não vai parar. Porém, caso se aceite a situação em que se encontra, a situação torna-se muito mais fácil de ser controlada”.
De acordo com Botelho, os dependentes do tabaco são divididos em três grupos:
– Pré-contemplação: etapa em que o indivíduo tem consciência dos prejuízos a saúde que o fumo traz, mas não pensa em abandonar o hábito;
– Contemplação: quando o usuário considera a hipótese de deixar o vício;
– Ação: quando a pessoa está decidida a largar o tabaco;
Se o paciente estiver no terceiro estágio, ele pode seguir aos processos enumerados por Botelho para seguir uma nova vida.
1 – Terapia Cognitiva Comportamental
Neste método, o profissional de saúde irá motivar o usuário a abandonar o vício ressaltando as vantagens e benefícios que ele terá ao deixar a prática. “Essa terapia leva o individuo a valorizar tudo de bom que ele vai ter ao largar o tabaco, como aumentar a sensação de prazer em viver; a melhora do paladar e o olfato, que vão deixar os alimentos mais saborosos; deixar de ter o mal odor e o mal hálito causados pela nicotina, o que aumenta a autoestima; a disposição para fazer exercícios físicos e seguir uma nova dieta alimentar para evitar o ganho de peso.
2 – Medicamentos
Para as pessoas que sofrem de ansiedade e depressão, esse processo pode ser o mais indicado. Com a Teoria de Reposição de Nicotina, onde se utiliza adesivos e pastilhas para tentar diminuir a fissura [grande vontade de fumar] e com os remédios recomendados sempre por um médico especializado, que reduzem o desejo de procurar pelo cigarro.
Números
Conforme dados da Pesquisa Especial sobre Tabagismo (Petab), quase 35% da população brasileira maior de 18 anos era considerada fumante em 1989. Na última pesquisa, registrada em 2013, o índice caiu mais da metade em relação ao primeiro levantamento.
Para o especialista, a queda é resultado do empenho da comunidade médica e, principalmente, de políticas públicas realizadas para combater o cigarro e alertar a sociedade sobre os riscos do tabagismo.
“Antigamente, podia-se fumar em todos os lugares. Hoje em dia, há uma série de restrições […] não se pode fumar em ambientes fechados, restaurantes, cinemas, etc. A consciência gerada pelas mídias e propagandas, destacando as doenças e os danos causados pelo cigarro, contribuíram muito para a redução desse percentual”.

Fonte: Circuito MT

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